Bruxelas. Travagem no emprego enfraquece poder salarial dos portugueses


O “recente abrandamento” no emprego em Portugal está a fazer com que o crescimento dos salários esteja a ter menos impacto do que o esperado na retoma da economia, constata a Comissão Europeia (CE), nas novas previsões intercalares de verão, divulgadas ontem, quarta-feira.

Dito de outra forma, “o crescimento dos salários é mais elevado do que a inflação [um indicador de que o poder de compra está a subir], mas o seu impacto na procura agregada é parcialmente contrariado pelo recente abrandamento na criação de emprego”, refere o novo estudo.

Ou seja, havia receios de que o crescimento mais rápido dos salários pudesse alimentar muito o consumo privado, levantando dúvidas quanto ao risco de agravamento do défice externo da economia, por exemplo, pois muito do consumo é feito em bens e serviços importados.

Aparentemente, a Comissão mostra-se agora menos inquieta com isso. De facto, o crescimento do emprego tem vindo a sofrer uma travagem a fundo desde meados de 2017.

No caso dos trabalhadores por conta de outrem (quase 4,1 milhões de pessoas, o grupo mais importante do mercado laboral), o ritmo de expansão do emprego estava nos 4,6% no terceiro e quarto trimestre de 2017, tendo afundado para uns meros 0,8% no primeiro trimestre deste ano, indica o INE.

É o registo mais fraco desde meados de 2013, mas nessa altura Portugal estava numa grave crise e submetido ao programa de ajustamento da troika.

Este enfraquecimento no ritmo do emprego dilui assim a importância dos aumentos salariais que, segundo a CE, podem estar a acontecer acima do nível da inflação (mais poder de compra).

No entanto, mostra a Comissão, os aumentos salariais em Portugal continuam a ser relativamente fracos quando comparados com os de outros países. Em 2018, o crescimento das compensações (salários brutos) por trabalhador ficou em 2%. A média da zona euro foi 2,2%. Na Alemanha, a maior economia da área da moeda única, o aumento médio chegou a 3%.

No mesmo estudo, Bruxelas chama a atenção para as fragilidades que estão por sanar na economia portuguesa, reiterando que, no futuro próximo, os riscos são sempre mais negativos do que positivos.

A CE manteve a previsão de crescimento que tinha na primavera (1,7% este ano), abaixo do valor esperado pelo governo (1,9%) e bastante abaixo dos 2,2% que servem de base para o Orçamento de Estado deste ano. O crescimento da zona euro, onde estão os maiores parceiros de Portugal, pode afundar para apenas 1,2% em 2019, igual ao que se dizia na primavera (previsões de maio).

Diz a CE que “prevê-se que o crescimento do produto interno bruto (PIB) diminua marginalmente ao longo do horizonte de previsão, refletindo principalmente um ambiente externo menos favorável. O crescimento do consumo privado também deve enfraquecer, enquanto o investimento deve acelerar, mantido pelo ciclo de absorção dos fundos da União Europeia (UE)”.

No entanto, “os riscos para as perspetivas económicas do país permanecem no lado negativo, refletindo o recente aumento na volatilidade da produção industrial e do saldo de comércio exterior do país”.

A questão, alerta a CE, é que Portugal (tal como muitos outros países europeus) já está a sofrer com a crise comercial global, o que também ajuda a explica o abrandamento no emprego já que os empresários podem estar a adiar ou a redimensionar investimentos à luz desta incerteza.

Se por um lado, “o sector dos serviços, sobretudo o turismo, continua a sustentar o crescimento”, “o desempenho da indústria portuguesa está a sofrer com a menor procura externa”, defende Bruxelas.

“A economia europeia continua a expandir-se num contexto mundial difícil”, observou o comissário europeu da Economia, Pierre Moscovici, na conferência de imprensa que deu ontem na capital belga.






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